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Publicada em 20/11/2019 às 01:01 | Atualizada em 26/11/2019 às 17:38

Gloria Groove revela que não acreditava em Sedanapo e cita transformação após se perceber drag queen: - Me libertou como compositora

A cantora recém lançou um projeto visual, um EP de quatro músicas chamado ALEGORIA

Carolina Rocha

Divulgação

Gloria Groove resolveu quebrar o jejum (seu último disco foi lançado em 2017) e lançou um EP completíssimo nesse finzinho de 2019! No dia 12 de novembro, a cantora divulgou, oficialmente, ALEGORIA, um álbum com quatro músicas e com uma pegada totalmente visual. E em entrevista ao ESTRELANDO, a drag queen falou sobre esse novo projeto, a sua longa trajetória no meio artístico e, ainda, a importância de reconhecer privilégios e ter empatia. Acompanhe abaixo!

ALEGORIA

No bate-papo, Gloria assumiu que ficou bastante animada com o EP, que pareceu se encaixar perfeitamente na atual fase de sua carreira.

- Eu sempre quis fazer algum projeto visual. Estavam me cobrando qualquer projeto cheio já há muito tempo. Estava esse tempo todo lançando single, trabalhando em estratégias, me dedicando a parcerias, shows... Nesses dois anos estava sempre no estúdio, sempre gravando músicas novas. Meu processo criativo não parou em nenhum momento. E quando eu olhei para o que eu tinha, eu sugeri para a minha equipe: Por que a gente não vem agora com essa pira visual, né? Eu não pensei em fazer várias faixas e também fiquei insegura em lançar um álbum. Me empolgou essa ideia de conseguir dar atenção para essa quantidade de faixas, explicou. 

Ela ainda contou que fez questão de estudar outros projetos do tipo para ter referências e inspirações.

- Estudei todos os projetos visuais: o Lemonade [Beyoncé], o próprio Kisses [Anitta]... fiz uma pequena imersão para entender. Vi que tinha várias maneiras de fazer o visual, de forma que eles se linkassem ou não, né? E eu consumo muito isso, então também não tive dificuldade alguma. Amei também fazer a imersão dentro dos meus vídeos, tudo isso é uma criação muito particular do artista. Depois que eu cheguei em um nome e vi que aquilo representava muito bem, tudo em uma coisa só, aí várias portas se abriram na minha cabeça. A partir disso que eu fui montando cada visual. 

E falou sobre como decidiu incluir nas músicas de ALEGORIA assuntos como pink money, militância e fervo.

- De dois anos pra cá, minha vida mudou completamente. Eu consegui fazer singles, consegui um público muito maior, consegui entrar no âmbito nacional, muito mais popular. Foi quando eu comecei a fazer Carnaval, festas universitárias... E de alguma forma eu me sinto no mesmo corre de quando comecei a me montar. Eu literalmente me sinto a mesma pessoa vivendo nesse mundo gigantesco, muito maior do que era antes. Eu amo fazer da música o meu experimento, para não me sentir sozinha. Muito do que eu falo no meu som, é o que a galera sente, o que as pessoas que se parecem comigo vivem. E em cada musiquinha de ALEGORIA eu consigo retratar um pouco da nossa vida. Então eu me sinto muito contente fazer de um projeto assim um lugar onde a gente se vê em tudo, né? É muito importante para mim ouvir o que as pessoas têm a dizer, quais são as questões atuais... Eu acredito muito naquilo que a Nina Simone falava, de que O artista tem o dever de refletir o seu tempo. E esse é o meu dever, não só como artista, mas como representante. Acho que o trabalho como drag queen tem um impacto cultural diferente.

Surpreendentemente, Gloria assumiu que não acreditava muito em Sedanapo, uma das músicas mais populares do EP.

- Eu acredito muito em cada uma [músicas de ALEGORIA] de um jeito completamente diferente. Mas tem uma música que chama muito a minha atenção, que eu não acreditava tanto nela. Só que por conta do Pablo Bispo, que é meu amigo e compositor, e por conta da minha mãe, Gina Garcia; essa música sempre foi o xodó dos dois. Então eu acabei retomando a minha esperança nessa música e eu vejo que está todo mundo amando também, que é Sedanapo. Estou muito feliz que Sedanapo está tendo essa popularidade. Agora estou me sentindo tranquila, até pelo fato de ser uma música que dá uma pausa no álbum para dar uma relaxada, porque as outras faixas são mega pesadonas. Acabei redescobrindo todo o valor dentro do projeto, e quando entrou no contexto eu percebi o quanto era importante.

MIL GRAU

O primeiro clipe do EP, o da música MIL GRAU, foi liberado no próprio dia 12 de novembro. Agora, já conta com mais de um milhão e 600 mil visualizações! E Gloria, claro, explicou como o conceito do videoclipe surgiu, dizendo que queria fazer algo bem diferente do que já havia feito anteriormente.

- A primeira coisa que eu queria com MIL GRAU, é que não fosse um clipe pop como qualquer outro. Então eu cheguei na referência dos clipes da Nicki Minaj, o Chun-Li e o Ganja Burn, que começam com um fragmento de um conto. Isso chamou muito a minha atenção. Então eu falei É isso. Eu vou criar um conceito como se fosse um filme de uma rainha em um plano transcendental do fogo e vamos contar uma história com isso. E eu me diverti muito com isso porque a gente pode tratar um clipe pop de forma cinematográfica, mas sem o comprometimento de ficar muito sério. É um clipe que eu adoro assistir, estou muito orgulhosa. 


AÇÕES DOS FÃS

Caso você ainda não esteja sabendo, os demais clipes de ALEGORIA serão lançados depois que os fãs cumprirem alguns desafios que serão lançados nas redes sociais de Gloria. A intenção da artista é em unir o seu trabalho com o engajamento do público, que atuará com as missões tanto na internet, quanto na vida real.

- Eu até poderia chegar com o EP e com todos os visuais de uma vez só, mas pra quê se a gente pode fazer as pessoas se engajarem dessa forma, né? Isso é muito legal, porque fazemos isso de forma democrática e de um jeito onde todo mundo pode fazer parte daquilo ali. Não é só o que eu fiz, é o que eu fiz de encontro com a relação com o mundo, né? Eu acredito que já somos tão próximos de história, de contexto, de sonhos, de traumas, e quando a gente consegue trazer o público para dentro do trabalho literalmente, acho que eles se sentem muito especiais. Eu adoro fazer essas ações que não se restringem à internet e vão para a vida real. 

REFERÊNCIAS E CARREIRA

Gloria possui uma série no Instagram chamada GGSESSIONS, onde ela faz covers em acústico de suas canções favoritas. A última temporada teve músicas do RBD, grupo que foi um verdadeiro estouro em meados de 2004. E a cantora fez questão de exaltar o seu amor pela banda, que surgiu através da novela mexicana Rebelde.

- Depois que eu entendi como funcionava a plataforma do IGTV, eu pensei Nossa, que legal! É tipo um canal no YouTube, mas sem esse comprometimento de youtuber. Eu curto muito. E RBD para mim estava nesse lugar de coisas que eu quero compartilhar com quem tem mais ou menos a minha idade, sabe? Marcou muito a minha vida. Eu tinha uns 11 anos quando RBD começou a fazer muito sucesso. Eu nunca fui em nenhum show, e eu fico muito triste por conta disso [risos]. Eu amava muito e era uma referência pop muito forte no começo da minha adolescência. 

Ela também relembrou as suas participações no Programa Raul Gil e no Balão Mágico.

- Eu estou na TV desde criança, desde os sete anos de idade cantando publicamente. Então é muito história para contar. Claro que drag mudou muito a minha vida. Mas antes disso, eu gosto de ter explorado esse tipo de exposição quando criança. Teve Raul Gil, a novela, depois me dediquei muito à dublagem na adolescência. Eu fiquei dublando por um bom tempo até ir para o teatro musical com 17 anos, que foi quando eu me descobri como drag queen. Fazendo drag hoje eu estou em casa no palco, no set de filmagem, mas eu também sinto que estou ali há muito tempo, porque realmente foi assim.


NOVELAS

Atualmente, Gloria está na trilha sonora de Bom Sucesso com a música Muleke Brasileiro, e também em A Dona do Pedaço, com a canção Só o Amor, um feat com Preta Gil. Esta última, inclusive, é tema da personagem Britney, uma mulher transexual, interpretada pela atriz Glamour Garcia, que também é uma mulher trans. 

- Muito surreal! Trilha sonora de novela é tão emblemática na cultura do Brasil. É muito legal ver como a narrativa de pessoas como a Glamour está sendo retratada, assim como a narrativa da Linn da Quebrada em Segunda Chamada. Quando que a gente pensou que teriam duas pontas representando a transgeneridade na Globo? Alguma coisa muito grande está acontecendo. Eu fico extasiada de pensar que fazemos parte não só do cenário, do mercado, mas de uma transformação mesmo. 

A cantora aproveitou para deixar claro que não tem medo das críticas que sofre/pode sofrer por ocupar esse espaço - muito pelo contrário!

- Eu sou a mais destemida do cenário, pode ter certeza! Não tenho medo de nada. Tenho muita coragem. E quando a Preta me chamou eu falei O quê? Cantar o tema da personagem trans na novela? Vamos agora! E tem que existir isso, temos que estar na casa das pessoas. A essa altura a gente quer ir para cima, não tenho tempo de sentir medo.

REPRESENTATIVIDADE

No final da entrevista, Gloria falou sobre a importância de se reconhecer como uma drag queen - e de como isso nunca envolveu o seu gênero, mas sim, a sua liberdade e expressão artística.

- Isso nunca foi uma questão para mim, com o meu gênero. E nunca teve a ver com gênero para mim, sempre com expressão artística. Quando eu me descobri como drag aos 17 anos, eu percebi o quanto a chamada pelo pronome ela mudou coisas na minha cabeça. Me libertou como compositor, por exemplo. Eu não conseguia me sentir confortável compondo de um ponto de vista masculino, olha que coisa louca? Eu não queria soar como um cara. Então isso mudou minha vida. O símbolo do universo feminino caracteriza um poder na minha cabeça, desde uma idade muito jovem. Eu vi minha mãe sendo cantora a vida toda, tanto o brilho quanto o perrengue de ser cantora. Então eu acho que sempre vi isso e associei a um poder muito grande. Acho que sempre admirei muito o esforço da minha mãe como cantora. E quando eu entendi que eu era drag, eu entendi que eu também era cantora. E nunca teve a ver com gênero, mas sim com a expressão artística que eu precisava buscar - que por acaso era uma figura feminina. O poder para mim é feminino e Deus é mulher. E digo mais: o Daniel passou a se sentir um cara muito mais inteligente, sexy, sagaz, descolado, depois da chegada da Gloria. Como se a Gloria fosse uma super-heroína particular, que me faz melhorar como pessoa. 

A cantora reforçou o quanto esse assunto é importante e necessário na nossa sociedade.

- A gente sempre tem que voltar nessa pauta porque é muito fácil confundir. Usam as posições de forma errônea. Eu já fui convidada para ir em eventos sobre mulheres, e acho que falta uma noção muito grande. Ter essa delicadeza de entender o que você está falando, com quem você está falando, acho muito elegante quando as pessoas têm essa preocupação. E acho que estamos evoluindo para começar a entender isso de fato, sem ser uma questão oculta, subjetiva. Por isso que eu acho tão legal a Pabllo [Vittar] fazer questão de reiterar isso, dizendo Galera, não somos travestis, somos homens gays. É questão de entender ao que está se referindo. Infelizmente, todo mundo não só coloca tudo num pacote só, como não faz questão de entender o que é. Então eu sempre tento usar a voz para pautar isso, porque ajuda muito a denotar quem sou eu: quem sou eu como Gloria Groove, como Daniel, como entidade artística, como pessoa... A gente tem que deixar muito claro porque as nossas amigas trans são muito desrespeitadas, descreditadas o tempo todo, então é uma pauta que merece toda a atenção e todo o cuidado.

E falou sobre o seu lugar de privilégio. 

- Acho que está começando também a bater uma consciência nas drag queens de que a gente tem um baita privilégio sendo homens gays. Temos o privilégio dentro do mercado, de tudo que a gente faz, porque infelizmente as travestis são muito preteridas ainda em qualquer meio, em qualquer conversa de empregabilidade e a música não está diferente disso. Acredito que as drags têm um privilégio enquanto homens gays, que é importante ser reconhecido, e reparado. Eu tento todos os dias tentar reparar o meu privilégio como homem gay, trabalhando com e incluindo pessoas trans, porque é sobre isso. 



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